11/10/2012

Texto do Papa Bento XVI


TEXTO INÉDITO DO PAPA BENTO XVI
PUBLICADO POR OCASIÃO DO 50º ANIVERSÁRIO
DO INÍCIO DO CONCÍLIO VATICANO II

Foi um dia maravilhoso aquele 11 de Outubro de 1962 quando, com a entrada solene de mais de dois mil Padres conciliares na Basílica de São Pedro em Roma, se abriu o Concílio Vaticano II. Em1931, Pio XI colocara no dia 11 de Outubro a festa da Maternidade Divina de Maria, em recordação do facto que mil e quinhentos anos antes, em 431, o Concílio de Éfeso tinha solenemente reconhecido a Maria esse título, para expressar assim a união indissolúvel de Deus e do homem em Cristo. O Papa João XXIII fixara o início do Concílio para tal dia com o fim de confiar a grande assembleia eclesial, por ele convocada, à bondade materna de Maria e ancorar firmemente o trabalho do Concílio no mistério de Jesus Cristo. Foi impressionante ver entrar os bispos provenientes de todo o mundo, de todos os povos e raças: uma imagem da Igreja de Jesus Cristo que abraça todo o mundo, na qual os povos da terra se sentem unidos na sua paz.
Foi um momento de expectativa extraordinária pelas grandes coisas que deviam acontecer. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «actualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.
Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspectos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois aConstituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitas elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.
Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a recepção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal concepção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjectivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.
O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaraçãoNostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de recepção activa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.
Se, ao início do Concílio, tinham prevalecido os episcopados do centro da Europa com os seus teólogos, nas sucessivas fases conciliares o leque do trabalho e da responsabilidade comuns foi-se alargando cada vez mais. Os bispos reconheciam-se aprendizes na escola do Espírito Santo e na escola da colaboração recíproca, mas foi precisamente assim que se reconheceram servos da Palavra de Deus que vivem e trabalham na fé. Os Padres conciliares não podiam nem queriam criar uma Igreja nova, diversa. Não tinham o mandato nem o encargo para o fazer: eram Padres do Concílio com uma voz e um direito de decisão só enquanto bispos, quer dizer em virtude do sacramento e na Igreja sacramental. Então não podiam nem queriam criar uma fé diversa ou uma Igreja nova, mas compreendê-las a ambas de modo mais profundo e, consequentemente, «renová-las» de verdade. Por isso, uma hermenêutica da ruptura é absurda, contrária ao espírito e à vontade dos Padres conciliares.
No cardeal Frings, tive um «pai» que viveu de modo exemplar este espírito do Concílio. Era um homem de significativa abertura e grandeza, mas sabia também que só a fé guia para se fazer ao largo, para aquele horizonte amplo que resta impedido ao espírito positivista. É esta fé que queria servir com o mandato recebido através do sacramento da ordenação episcopal. Não posso deixar de lhe estar sempre grato por me ter trazido – a mim, o professor mais jovem da Faculdade teológica católica da universidade de Bonn – como seu consultor na grande assembleia da Igreja, permitindo que eu estivesse presente nesta escola e percorresse do interior o caminho do Concílio. Este livro reúne os diversos escritos, com os quais pedi a palavra naquela escola; trata-se de pedidos de palavra totalmente fragmentários, dos quais transparece o próprio processo de aprendizagem que o Concílio e a sua recepção significaram e ainda significam para mim. Em todo o caso espero que estes vários contributos, com todos os seus limites, possam no seu conjunto ajudar a compreender melhor o Concílio e a traduzi-lo numa justa vida eclesial. Agradeço sentidamente ao arcebispo Gerhard Ludwig Müller e aos colaboradores do Institut Papst Benedikt XVI pelo extraordinário compromisso que assumiram para realizar este livro.
Castel Gandolfo, na memória do bispo Santo Eusébio de Vercelas, 2 de Agosto de 2012.

BENTO XVI



L'Osservatore Romano, 11 de outubro de 2012


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18/09/2012

Discurso na Câmara Municipal de Caçapava


DISCURSO NA SESSÃO ECUMÊNICA NA CÂMARA MUNICIPAL DE CAÇAPAVA

18 DE SETEMBRO DE 2012.
 “VERBUM DOMINI”


Reverendíssimos Padres;
Revendo Pastor;
Excelentíssima Sra Presidente da Câmara,
Reverendíssimos Diáconos,
Demais autoridades,
Estimado Povo de Deus,


         Esta sessão solene que marca há tantos anos a caminhada desta casa de leis, bem como de nossa realidade eclesial-ecumênica, reveste-se de grande júbilo, pois, temos a oportunidade de voltar nossos olhares a Bíblia, livro que contém a Palavra de Deus anunciada, acolhida, vivida e testemunhada ao longo da história.
         Gostaria de lançar três olhares sobre a Palavra de Deus, tendo como base, a exortação pós-sinodal  Verbum Domini, do Santo Padre, o Papa Bento XVI. Pensemos a Palavra em Deus, na Igreja no mundo.

1)   Verbum Dei (A Palavra em Deus)

O evangelista João, presenteia-nos na abertura dos seus escritos, com seu prólogo: “No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus e o Verbo se fez carne” (Jo 1,1.14)
Com estas palavras descritas na narrativa de João temos alguns princípios fundamentais, de que a Palavra (O Logos) ela é pré-existente, acontece antes mesmo da criação. A Palavra será a marca da realidade trinitária. Pai-Filho-Espírito Santo comunicam-se por esta Palavra pré-existente, e o mais importante, é de que este Logos não é apenas um vocábulo, é o Amor na sua essência. Assim este Logos, Palavra, revela a intimidade divina. Dialogam sob a forma do Amor. Compreendendo isso, podemos dizer de que, a primeira maneira de entender a Palavra em Deus, é senão pela simplicidade e a profundidade amorosa que cada pessoa da Santíssima Trindade tem de um para com o outro.
A Força deste diálogo intradivino, acontecida no Amor, não permanece somente no mistério, mas por ser Palavra-Amor, transborda em favor da realidade humana. Há um desejo divino: dialogar com o ser humano. Não basta uma palavra que provoque ação apenas na realidade divina. Deus escolhe o “ser humano” como lugar desta ação e por isso, a palavra torna-se o lugar do diálogo, da intimidade do divino com o humano e do humano com o divino.
João nos afirma: “E a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O desejo e ação dialogal do Divino são concretizados no mistério da Encarnação. Não quero aqui esquecer que a Palavra antes de “habitar entre nós”, tornou-se ação no Antigo Testamento: “Ele falou pelos profetas”.
Na Antiga aliança a Palavra é vocábulo que expressa a constituição de um Povo, é chamado, intervenção, condução, Lei, libertação, mas acima de tudo sinal de proximidade e envolvimento divino.
Cristo, Verbo Encarnado: Não nos esqueçamos de que o Amor marca o diálogo intra-divino e expressa a identidade da mesma. Com isto, é fácil entender que Cristo, o Lógos encarnado será essencialmente expressão desta “Caritatis Dei”, ou seja, do Amor divino.
Pelo Cristo, expressão autêntica do universo divino, temos acesso aos “átrios” do Mistério. Mesmo assim os encantos do mistério não se perdem, pelo contrário, despertam em nós o desejo de ir ao mais profundo e tomarmos de suas revelações e dos encantos. Encontrar em Cristo o acesso ao Mistério é desejar, sem medo, lançar-se no abismo de sua vida, que nos coloca na mais alta realidade, o céu.  Aproximar-se, envolver-se com a Palavra Encarnada é efetivamente experimentar o amor divino que preenche o ser humano. Do mesmo modo, não nos cabe a dúvida se a natureza humana do ser divino desqualificaria sua ação enquanto Palavra de Deus. É óbvio que a eficácia da Palavra não está simplesmente na sua natureza, mas naquilo que ela é, principio de tudo.
Recordemos: “Desde a encarnação, a Palavra, já não é apenas audível, não possui somente a voz, agora a Palavra tem um rosto: Jesus de Nazaré”.





2)   Verbum in Ecclesia (A Palavra na Igreja)

         Cristo tem uma presença na vida da Igreja, sua esposa, a comunidade que o escuta e anuncia a Palavra de Deus. Ao enviar os seus discípulos diz: “Ide anunciai a todos os povos” ou ainda “Ide, evangelizai”. A Igreja existe essencialmente para evangelizar, isto é, levar as pessoas a responderem de forma positiva à proposta de Cristo e a assumirem como próprios os valores do Evangelho.
         Acolhendo o mandato missionário, a Igreja, torna-se o âmbito privilegiado onde se encontra e se experimenta Jesus Cristo nas escrituras. Portadora deste Logos-Missionário, a Igreja tem a responsabilidade de testemunhar a identidade amorosa que é senão a identidade divina àqueles aos quais proclama a Palavra. Quanto mais a Igreja anunciar a Palavra como expressão do amor divino pelo ser humano, e um amor que liberta, cura, perdoa, consola, fortifica e conduz às verdes pastagens, isto é, à Salvação, ela estará correspondendo a essencial dialogal que há no coração de Deus.
Por isso, é preciso reeducar os seus membros a encontrar-se com o Cristo Palavra, mas não basta desejar que todos tenham a Bíblia, pois não somos uma religião do livro, mas é preciso que tenham acesso e conheçam a vida de Jesus Cristo, deste modo, a Palavra proclamada na Igreja deve ser entendida como acesso e meio pelo qual se adere ao Logos encarnado. A cada anúncio em suas liturgias, celebrações e trabalhos catequéticos, a Igreja sinaliza efetivamente o coração aberto de Jesus Cristo, acesso único à Salvação.

3)   Verbum Mundo (A Palavra no Mundo)

         A missão da Igreja, enquanto proclamadora da Palavra de Deus não se cumpre apenas na esfera ad-intra (internamente), mas principalmente ad-extra (externamente), fora do âmbito eclesial, ou seja, no mundo.
         “É preciso anunciar ao mundo o Logos da esperança. Em Cristo está a Salvação das Nações”. De fato, o mundo está carente de referenciais. Recorro, a Martin Luther King, que numa célebre frase afirma: “O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons.”
         De fato, como portadores de uma fé encarnada, revelada, cabe a nós, pastores, evolver os fiéis, as ovelhas, as quais o próprio Logos Encarnado nos confiou, deste espírito evangelizador, preparando-os, instruindo-os para anunciar e testemunhar com a vida a ação da Palavra em sua história.
         A Palavra no mundo deve deixar transparecer a realidade de um mundo novo, de um novo modo de conviver, de se aceitar, de respeito mútuo, de valores básicos para o dia-a-dia, por isso, como Igreja, conduzida pelo Espírito Santo, coloquemo-nos cada vez mais nesta atitude missionária. Todos os batizados são responsáveis pelo anúncio e aqueles que de fato deixaram o Cristo penetrar em suas vidas, tem hoje, a tarefa de mostrar aos seus irmãos e irmãs o caminho da salvação, que está em Jesus Cristo.

4)   Conclusão

 Concluo com um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Já não quero dicionários cultivar em vão.
Quero só a palavra que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual, vivêssemos todos,
em comunhão, mudos, saboreando-a”

         Saboreemos o Logos in Dei, in Ecclesia, in Mundo, isto é, em Deus, na Igreja e no Mundo.

         Obrigado pela atenção.


Padre Kleber Rodrigues da Silva
Pároco da Paróquia São José Operário

21/08/2012

A importância da Pastoral na vida da Igreja


A importância da Pastoral

Pe. Kleber Rodrigues da Silva

            O dia a dia de nossas Paróquias e Comunidades é marcado por diversas atividades que caracterizam a ação evangelizadora da Igreja e as quais damos o nome de Pastoral.
            A atividade pastoral desenvolvida dentro de uma Igreja tem como referência a pessoa de Jesus Cristo que se coloca como o Bom Pastor, em João 10. Ali o Cristo de cada uma, as protege, mas também vai atrás daquela que se perdeu. Trabalhar pastoralmente na vida da Igreja é ter claro esta missão, de anunciar, testemunhar e trilhar um caminho de intimidade com Jesus Cristo. Não basta uma série de atividades. Um autêntico trabalho pastoral se desenvolve associando ação e espiritualidade.
            O agente de pastoral deve ter claro que “toda ação eclesial brota de Jesus Cristo e se volta para Ele e para o Reino do Pai” (DGAE 2011-2015, n. 4). Deste modo, cada pastoral ou movimento existente precisa ter um foco, uma meta, um objetivo: conduzir as pessoas ao conhecimento de Jesus Cristo.
            Outro passo importante que cada pastoral deve dar é superar a ideia de somente “a sua” pastoral é importante. A meta não é essa, mas trabalhar a unidade na diversidade, uma pastoral complementa a outra como forma de testemunhar a multiplicidade dos dons e carismas.
            Que a cada mês construamos um caminho de reflexão sobre a Vida Pastoral de nossa Igreja e mais especificamente em nossa Diocese. Que o Cristo Bom Pastor, esteja junto de cada agente de pastoral.

Artigo a ser publicado no Jornal O Lábaro - Diocese de Taubaté

20/08/2012

Setembro: Mês da Bíblia?

Compartilho um artigo que acabei de escrever e será publicado no Informativo Mensal da CNBB-Regional Sul 1 - Estado de São Paulo.


Setembro: Mês da Bíblia

         A Igreja no Brasil celebra comumente os meses temáticos dentro de sua prática litúrgica e pastoral. Setembro é conhecido como o Mês da Bíblia, no qual muitas comunidades organizam-se para aprofundar o sentido não só do livro sagrado, mas da Palavra de Deus anunciada, celebrada, vivida e acontecida.
         Neste ano a proposta apresentada e preparada pela Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética aponta-nos a seguinte temática: “Discípulos Missionários a partir do Evangelho de Marcos” e o lema: “Coragem, levanta-te! Ele te chama” (Mc 10,49).
         Dentro deste contexto temático, o Mês da Bíblia vem como uma oportunidade clara às nossas comunidades de responder aos anseios das Diretrizes da ação evangelizadora: “Não se trata, por certo, de nos voltarmos para a Palavra de Deus como atitude momentânea, fruto do atual período da história. Trata-se de redescobrir, mais ainda, que o contato profundo e vivencial com as Escrituras é condição indispensável para encontrar a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo e aderir ao Reino” (DGAE n. 46). Toda dinâmica assumida deve levar os batizados a um compromisso efetivo com a Palavra Encarnada e consequentemente com a tarefa missionária da Igreja. Sentir-se encorajado e nutrido para o trabalho pastoral e provocado ao testemunho do grande valor e sentido de ser um discípulo missionário.
         Não nos faltam pistas para celebrar efetivamente este mês, seja através dos grupos de reflexão, dos círculos bíblicos, da leitura orante. O importante é não restringir o Mês da Bíblia ao gesto litúrgico de entronizarmos a Sagrada Escritura em nossas celebrações, mas irmos além, dando à comunidade a oportunidade de ouvir, acolher, degustar e testemunhar o Verbo Encarnado.
         Cada comunidade é chamada aprofundar o seu discipulado e perceber que este mês deve trazer a animação bíblica da pastoral e assim “conduzir a uma iluminação bíblica de toda a vida” Esses dias tornam-se uma oportunidade clara de colocar em prática as pistas de ação apontadas nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora 2011-2015. Ouçamos o convite que nos é feito: “Coragem, levanta-te. Ele te chama”, afinal a “Igreja no Brasil quer investir cada vez mais na formação de todos os católicos para que, nas mais diversas formas de seguimento e missão, sejam agentes deste contato vivo, apaixonado e comprometido com a Palavra de Deus” (DGAE n. 92).
         Que o Espírito Santo abra os nossos corações dando-nos a oportunidade de fazer como a Virgem Maria, acolhedora do Verbo Divino.

Padre Kleber Rodrigues da Silva

Homilia na Celebração de Abertura Diocesana da Semana da Família





HOMILIA NA CELEBRAÇÃO DE ABERTURA DIOCESANA DA SEMANA NACIONAL DA FAMILIA

POR OCASIÃO DA FESTA DE SÃO LOURENÇO, DIÁCONO E MÁRTIR

Reverendíssimos Padres
Reverendos Diáconos
Caros Membros da Comissão Diocesana da Pastoral Familiar
Estimados Coordenadores Paroquiais
Membros da Pastoral Familiar das Paróquias de nossa Diocese
Querido Povo de Deus.


        Primeiramente, nossa Paróquia São José Operário, criada há seis meses, se enche de alegria, por poder já neste inicio de caminhada escrever em sua história a celebração de hoje, acolhendo a cada um, como presente de Deus, assim como fez, nosso santo padroeiro, São José Operário, em relação a Jesus.

        Formamos aqui a família diocesana e como Igreja, damos a visibilidade do que significa viver uma relação esponsal, matrimonial com o Cristo. Sentimo-nos envolvidos pelo amor divino, onde o mistério eucarístico que estamos celebrando relembra do infinito gesto de doação de um para com o outro. A Igreja torna-se o lugar, o espaço, a manifestação e o sinal sensível da presença de Deus que atua no tempo, na história, no trabalho, na festa e na família. Envolvidos pela graça divina, somos a extensão do coração de Deus, bem como do seu projeto de salvação e daquilo que há de mais claro em seu Ser: que todos vivam em comunhão ame uns aos outros e alcance a participação na vida eterna.

        Neste ano de 2012, a Semana da Família, procurando ser um reflexo do VII Encontro Mundial das Famílias, ocorrido em Milão, desponta nosso interesse para os temas e as realidades que envolvem o cotidiano familiar, o trabalho e a vida social, expressa no aspecto da Festa. Com estas perspectivas, parece-nos claro de que não buscamos enquanto Igreja (entenda-se cada um) viver alienados ou simplesmente desenvolver dentro do âmbito do casal, uma espiritualidade que os coloque em outro mundo, mas pelo contrário, olhando para estas vertentes, buscamos edificar a espiritualidade familiar, com o coração em Deus e os pés na realidade.

        A essência da fé cristã, não é difícil de ser entendida: Toda ação pastoral tem em Cristo o seu ponto de partida e de chegada (cf. DGAE 2011-2015, n.4). Assim, não quero aqui discorrer e convencê-los da tarefa e a missão de cada um, mas mostrar o sentido de estar constantemente unido ao nosso esposo Jesus Cristo. Acredito que um dos modos ou meios pelos quais podemos viver a Semana da Família, é redescobrir o papel de Jesus Cristo, como principio da conjugalidade, da familiaridade e da ação pastoral. Não só as famílias que serão convidadas a estar em cada atividade promovida pelas paróquias são chamadas a descobrir o Cristo, mas todos. No texto do evangelho de ontem, ouvíamos a analise da realidade feita pelo Cristo, com um olhar interno e externo: Quem dizem os homens e vocês que eu sou?

        O processo de descoberta do “lugar” da nossa relação matrimonial com o Cristo começa quando não apenas dizemos a nós mesmos quem Ele é, mas já o tenhamos experimentado e saibamos quem de fato ele é. Deste modo, aproximar-se de Jesus Cristo é um fato essencial para que a família descubra nele a razão do seu proceder, do seu caminhar e do anunciar.

         Não basta conhecê-lo. É preciso ir além. Do mesmo modo que ouvimos no texto do evangelho de hoje: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto.”. Esta morte acontece, porque a semente descobre que sua essência não consiste em apenas ser um grão, mas tornar-se sinal de vida.

        Antes de querermos ser sinal de vida para outras famílias, gostaria de convidá-los a descobrir qual a nossa capacidade de produzir vida, isto é, não queremos apenas saber que somos coordenadores ou membros da Pastoral Familiar, mas queremos como membros de vida eclesial estar ligado a Jesus Cristo que nos dará a capacidade de irmos além do simplesmente “ser uma semente”.

        A nossa relação matrimonial com o Cristo, encontra ainda razões e fundamentos quando o casal (esposo e esposa) tem uma meta de vida conjugal. Testemunhando sua conjugalidade aos demais membros da família, certamente os frutos serão de que a “Família continua sendo a célula da sociedade”. O subsidio Hora da Família afirma: “Quando os dois cônjuges se entregam totalmente um ao outro, pela atração, pela companhia, pelo diálogo, amizade, companheirismo, amor, doação, comprometimento juntos doam-se entre si e também aos filhos”. Estar próximo de Jesus Cristo ajudara cada casal a entender que “amar é cuidar do limite do outro”.

        Da mesma forma que cada um ao longo dos anos procurou conhecer seu cônjuge e estabelecer com ele um novo lar, assim, a Semana da Família será um semear, quando cada um, de fato, entender o lugar e o papel de Jesus Cristo na vivencia da espiritualidade conjugal, e com isso, estaremos colocando em prática o primeiro objetivo desta Semana: “procura motivar, fortalecer e evangelizar a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao reino definitivo”.

        Mas a relação matrimonial com o Cristo, passa pelo Trabalho. Parece-nos distante entender isto, mas o vinculo matrimonial, traz a cada um a responsabilidade de “trabalhar pela santificação do outro”. Do mesmo modo, refletir a Semana da família na perspectiva do Trabalho, é senão entender, de que modo, estamos envolvidos com a santificação do outro. “o trabalho é para cada ser humano um chamado a participar efetiva e afetivamente na obra de Deus”. Não queremos entender a família apenas no contexto do Trabalho, como algo braçal. Mas entender de que modo, cada família consegue promover um “vínculo” de valores, que são consequências daquelas sementes lançadas ao chão e que descobriram sua finalidade e sua razão de ser, quando morreram para si e tornaram-se vida para o outro.
        A semana da família também quer refletir sobre a influência do Trabalho no desenvolvimento desta conjugalidade e desta familiaridade. Até que ponto eles interferem na essência da família. Sabemos que eles são indispensáveis, no entanto, não devem fazer com a “convivência familiar” seja posta em risco.

        Por fim, a semana da Família, é celebrada da perspectiva da Festa. A melhor festa que participamos e pela qual nutrimos nossa relação matrimonial com o Cristo, chama-se Eucaristia. Quem não se lembra do refrão do congresso eucarístico de Campinas: “Venham, Venham todos, para a Ceia do Senhor, casa iluminada, mesa preparada com paz e amor”. Mas uma vez retomamos ao ponto central de nossa reflexão, a Semana da Família, deve ajudar as famílias a descobrir a alegria do Cristo em suas vidas. A Festa que se pode fazer na medida em que se mantém uma relação séria e próxima daquele que é expressão do amor de Deus por nós. E a festa cristã tem um dia certo: o domingo. O Dia que o Senhor fez para nós, como diz o Salmo do domingo da Páscoa.  Sentir o desejo da eucaristia. Buscar as celebrações como uma “antecipação do Céu”, como nos afirma o Concílio Vaticano II.

        Aqui a tarefa da semana da Família, é ajudar cada ambiente a familiar a entender que a Festa Eucarística preparada dominicalmente não consistira apenas num ato de comungar, mas num ato de continuidade, isto é, a festa da salvação ganha seu sentido quando há em cada membro da família o esforço de fazer do seu trabalho e do lar, um lugar onde a eucaristia é celebração, é festa, é realidade próxima, não apenas ato litúrgico, mas ato vivencial e do coração.
       
        Peçamos a interseção de Santa Gianna Beretta Molla, que escolheu pela vida da criança, nos auxilie também a optar pela vida em Jesus Cristo.
        Em nome de nosso Bispo e de nossa Diocese, uma Semana da Família frutuosa, repleta deste “lugar da família” na sua relação com Jesus Cristo. Trabalhemos conduzidos pelo Espírito Santo, para que a Festa da santificação familiar seja uma realidade em cada paróquia.

        Que Santo Lourenço e Santa Gianna Beretta Molla, roguem a Deus por nós.

Padre Kleber Rodrigues da Silva
Secretário de Pastoral – Diocese de Taubaté.